Temas ‘estúpidos’ de pesquisa?

toomuchwork

Retirada do quadrinho Cecilia’s Adventure in Thesis Land (www.phdcomics.com)

Antes de mais nada, um esclarecimento: comungamos da ideia de que não há temas maiores e menores na ciência. Não há assuntos, no nosso entendimento, que mereçam mais ou menos atenção do que outros.

Naturalmente, há pesquisas cujos resultados podem auxiliar no tratamento de doenças, na resolução de conflitos e em descobertas que podem vir a influenciar o destino de muitas pessoas. E precisam, por conseguinte, de financiamentos mais vultuosos e atenções especiais das instituições de fomento e pesquisa.

Contudo, pesquisas que não se enquadram, diretamente, na categoria de ‘salvadoras da humanidade’, não podem ser taxadas de irrelevantes ou menores pelo fato de não apresentar – ao menos numa primeira leitura – contribuições à sociedade.

Por quê? Tomemos como exemplo o esclarecimento à questão trazido por Eco (2001), de quem tomamos de empréstimo o termo ‘estúpido’ do título. Para ele, não existe temática que seja, realmente, estúpida. O que vai garantir a ‘não estupidez’ de uma pesquisa é, no final das contas, o afinco e dedicação investidos no trabalho. Ainda não convenceu? Pois recorramos a um argumento certeiro do autor:

“Conclusões úteis podem ser extraídas de um tema aparentemente remoto ou periférico. A tese de Marx não foi sobre economia política, mas sobre dois filósofos gregos, Epicuro e Demócrito. E isso não foi um acidente de trabalho. Marx foi talvez capaz de analisar os problemas da história e da economia com a energia teórica que conhecemos exatamente porque aprendeu a pensar sobre os filósofos gregos. (…) É preciso rever os conceitos que se têm sobre utilidade, atualidade e empenho dos temas de tese” (Eco, 2001, p.5).

Assim – descontando os exageros que sempre podem acontecer -, antes de desqualificar o tema de uma pesquisa por sua aparente inutilidade ou despropósito, lembre-se de Marx, Eco e o epicurismo.

Referência:
ECO, Umberto. Como se faz uma tese. São Paulo: Perspectiva, 2001.

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